Laboratório de apoio e terceirização de testes

No Brasil, a terceirização é praticada já há algumas décadas, o que colocou nossa sociedade sensível aos conceitos de modernidade empresarial que começaram a ser adotados nos Estados Unidos, durante a 2ª Guerra Mundial.

Em nosso segmento, muitos laboratórios já descobriram as vantagens de adotar a contratação de terceiros, ainda que se constitua a realização de exames em nossa atividade-fim, ao contrário de outros segmentos que tercerizam, na maioria das vezes, um processo de sua cadeia produtiva, mas que não constitui sua atividade fim.

Dentre os tipos de terceirização, aquela praticada pelos laboratórios clínicos pode ser considerada mista, porque uma parte do processo é realizada pelo laboratório contratante e outra é feita pelo laboratório contratado.

A contratação de terceiros deve ser encarada como um caminho avançado da empresa moderna. Nos Estados Unidos, este processo se consolidou como técnica de administração empresarial a partir da década de 50, com o desenvolvimento acelerado da indústria. Em nosso país o mercado de terceirização está se consolidado em todos os níveis e qualificações.

No Brasil, foi introduzido pelas montadoras de automóveis. Hoje, é difícil imaginar qualquer empreendimento industrial ou comercial que não possua ramificações, ou que não tenha parte de seus serviços ou produtos, realizada por terceiros.

No aspecto jurídico nenhuma terceirização teria sentido se não fosse correta do ponto de vista legal. O enunciado das leis 6.0l9 de 3 de janeiro de 1974 e a lei 7.102 de 20 de julho de 83 devem ser consultadas. Por outro lado, documentos relativos a qualidade como BPLC, NBR-ABNT 14500, portarias das Vigilâncias Sanitárias, programas de certificação da qualidade como O PALC da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, reconhecem a terceirização para os serviços laboratoriais e estabelecem requisitos para que o recurso seja utilizado.

A seleção deve ser efetuada pela Direção do laboratório ou seu representante legal. Além disso, o laboratório deverá implantar uma sistemática documentada dos processos de seleção para os laboratórios de apoio além de estabelecer seus critérios relativos à necessidade de laboratórios Certificados, com pontuação específica para cada tipo e importância de certificação, e a avaliação periódica desses serviços através de indicadores que possam servir para verificar a qualificação do serviços prestados. Como por exemplo, o índice de qualidade das análises, que correlaciona as análises com problemas e o número total de exames realizados em um determinado período (trimestralmente, por exemplo); o índice de Pontualidade correlacionando o número de amostras em atraso com o número total de enzames remetidos; o índice de qualidade do sistema (análise das certificações do Laboratório de apoio; além do índice de percentual de preços para comparação com outros serviços; agilidade nas respostas e facilidades de comunicação, atendimento e etc., são alguns indicadores que podem compor os critérios de Avaliação de Desempenho do Laboratório de Apoio e que podem permitir ações corretivas e/ou preventivas na qualidade do processo de terceirização dos serviços.

Terceirizar é estratégico quando avaliamos adequadamente as rotinas que poderão ser realizadas por um Laboratório de Apoio. O que terceirizar depende da necessidade de cada laboratório. Pode-se verificar, por exemplo, número pequeno de amostras para um teste específico; exames que requerem um grande número de controles para atender aos protocolos da qualidade aliado ainda a rotinas pequenas; exames de média ou alta complexidade e que exijam investimentos em construção de áreas específicas, equipamentos e qualificação de pessoal, que não se justifiquem os altos custos destes processos; exames com relação custo/benefício cuja terceirização possa servir para acomodar um melhor fator para esta relação, mesmo porque alguns destes exame que são terceirizados acompanham rotinas de simples complexidade e que podem ser realizadas no laboratório onde ocorreu o atendimento primário, sendo a terceirização uma alternativa no atendimento às expectativas de seu cliente, ampliando suas possibilidades no atendimento.

A seleção do laboratório vai exigir, além dos indicadores da Qualidade estabelecidos pelo laboratório contratante, uma logística que atenda itens quanto a localização, prazos dos resultados, para que possam atender as expectativas e necessidades de seus clientes, além de uma boa relação custo/benefício. Um outro aspecto importante é a logística de transporte do material biológico. O transporte e o acondicionamento de materiais biológicos devem seguir, as recomendações da ONU, IATA e Ministério dos Transportes além do que determina as Vigilâncias locais para este procedimento. Para cada tipo de material existe uma forma de acondicionamento. Para cada acondicionamento, uma forma de conservação. Para cada conservação, uma temperatura e tipo de gelo específicos. Por fim, para cada entrega, um meio de transporte e assim por diante. É importante estar consciente de que da coleta à análise, as amostras biológicas passam por procedimentos que podem interferir de forma contundente no resultado da análise. O transporte de substâncias infectantes, no Brasil, é considerado como transporte de produtos perigosos, desde que se enquadrem na Portaria n°204/97, que corresponde à 7ª Edição das Recomendações da ONU, editadas em 1991. Existem exigências relativas à embalagem que devem atender aquelas previstas no item II 2.3 da mesma Portaria. A fuga aos protocolos de acondicionamento e transporte podem comprometer a qualidade da amostra e, consequentemente, a qualidade do resultado advindo de sua análise. O laboratório de apoio deve informar ao laboratório requisitante as amostras não-conformes para análise e somente deverá proceder sua análise após anuência documentada, por parte do laboratório contratante dos serviços e ainda assim, o laudo do laboratório de apoio deve referir que o exame foi processado em amostra não-conforme e, consequentemente, traz limitações na consideração do valor preditivo daquela análise. Muito seguro e prático é obter do laboratório contratado seu manual com as corretas orientações quando a coleta, preservação da amostra e sua estabilidade, para que se possa criar sistemas de coleta e transporte que assegurem um correto procedimento analítico. Já existem laboratórios com adequada gestão de processos de logística e apoio com equipes treinadas nesta etapa.

Por outro lado, é preciso estar aberto para que seu cliente seja informado, sempre que solicitar, se o exame é realizado nas dependências do laboratório ou em um laboratório de apoio. Criar um sistema para guarda dos laudos do laboratório de apoio para seus arquivos de rastreabilidade dos exames e que devem ser mantidos por cinco anos, também é uma etapa que deve estar bem sedimentada no processo de terceirização.

É importante mantermos nossa responsabilidade civil no que se refere a preservação das propriedades das amostras e a integridade do meio ambiente e dos seres humanos. Dessa forma, se praticada com critério e responsabilidade em toda a amplitude que o processo exige, a terceirização de exames pode se constituir numa boa relação de parceria e respeito mútuo entre as partes envolvidas: cliente/laboratório contratante/laboratório de apoio.

Dr. Ismar Barbosa

 
 
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